Artigos
Apoio Psicológico
Fórum
Refira-nos
Aborto Espontâneo e Trabalho de Luto

Para muitos casais ter filhos é como alcançar um pedaço de imortalidade.


Para a maioria das pessoas, a gravidez e a maternidade são acontecimentos naturais na vida de qualquer mulher, que decorrem sem grandes sobressaltos ou problemas. A fertilidade é venerada em quase todas as culturas e a gravidez é um marco no desenvolvimento adulto, uma ponte entre gerações e rumo ao futuro, igualmente rica em simbolismo.

A gravidez é um acontecimento que se estende a toda a família, modificando rapidamente o relacionamento dos futuros pais com os seus próprios pais e todos aqueles que os rodeiam. A chegada de um filho marca o final do período turbulento da adolescência e afastamento da família, permitindo a reconciliação e a aproximação à família na idade adulta.

Tanto as meninas como os meninos são expostos a pressões subtis ao longo do seu desenvolvimento para terem filhos. As meninas aprendem a brincar com bonecas, a cuidar delas, a segurá-las de forma correcta exercendo um papel maternal desde os primeiros anos de vida.

Os meninos antecipam desde cedo as alegrias de criar os seus filhos, de os levar ao futebol, de praticar desporto, etc. Na idade adulta, a maior parte dos casais deseja ter filhos, presumindo a sua capacidade para os ter.

Perda física e afectiva

Para algumas mulheres, a gravidez não é bem sucedida e, por vezes, surge o aborto espontâneo. A morte de um bebé é sempre um choque, mesmo que seja um bebé que não se chegou a conhecer. Não faz parte da lei natural de vida, não é algo que seja esperado, pois os bebés representam o início da vida e não o final. Por causa desta enorme contradição, a morte de um bebé é tão difícil de acreditar e aceitar.

A sociedade nem sempre aceitou (e provavelmente ainda não aceita) que o sofrimento de perder um bebé por aborto espontâneo pode ser comparável, em termos de trabalho de luto, à perda de uma criança com alguns anos de idade.

Independentemente de se tratar de uma criança com um ano de idade, uma criança que viveu apenas algumas horas ou um feto com malformações, existe sempre uma reacção de sofrimento emocional, que implica depois a existência de um ajustamento psicológico, tanto individual como familiar.

Ao aborto segue-se um trabalho de luto, que poderá trazer maior ou menor tumulto, conforme a relação da mulher com este bebé, que não chegou a nascer.

Além da perda física, existe a perda afectiva. Perdemos um filho que não chegámos a conhecer, a embalar, a alimentar, a abraçar e, com ele, perdem-se as ilusões e sonhos que tivemos para o seu futuro.

É importante que estas mulheres entendam que não estão sozinhas. O aborto espontâneo ocorre em cerca de 25% das gravidezes humanas. É normal que sintam uma dor enorme e difícil de suportar. O tempo é um grande aliado e, com o passar do tempo, é possível ultrapassar a dor.

O trabalho de luto é um processo doloroso. A pessoa passa por fases em que surgem sensações fortes, que parecem permanecer para sempre. É importante que a dor seja vivida, que os sentimentos não sejam ignorados, pois a dor faz parte do processo de recuperação.

A dor da perda de um filho vai acompanhar a pessoa durante toda a sua vida, mas com o tempo ela vai aprender a encarar esta dor de forma diferente, aprendendo a acreditar que pode tentar novamente.