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A vida da Teresa aos olhos da mãe.
Era uma 5ª feira. Um dia muito chuvoso, com forte vento e frio, talvez por isso a Teresa não lhe apetecia vir cá para fora, o médico teve que fazer uma porta mais larga (cesariana) para sua excelência sair. Não, na verdade a Teresa tinha o cordão umbilical à volta da cinta, que não a deixava descer. Finalmente a Teresa nasceu, estávamos a 13 de Outubro 1988. Os católicos celebram, neste dia, a 2ª aparição de Nossa Senhora aos Pastorinhos, por isso tive uma recepção especial de parabéns, por parte das irmãs da ordem da Trindade, onde a Teresa nasceu. Mal eu sabia o que me estava reservado 17 anos mais tarde. A Teresa foi filha única, teve uma infância normal, rodeada sempre de muitos carinhos, com muitos primos (mais de 20 primos direitos) e desde pequena com uma relação especial com cães. Muitas vezes reclamava:
- Ó mãe, tu não me dás nem um gato, nem um cão, nem um irmão
A Teresa era esbelta e com muita força, não gatinhou e com 10 meses já andava. Para comer, em pequena, era uma peste, sendo o seu prato favorito as batatas fritas com salsichas. Desde de cedo mostrou ser muito organizada, diria mesmo perfeccionista em tudo que fazia. A pintar não saía fora das linhas do desenho, se alguém ia lá para casa brincar com ela, os brinquedos saltavam todos cá para fora, mas não se deitava sem colocar tudo no sítio, até os puzzles eram separados cada um, na sua caixa.
Viveu sempre com os pais, eu a Eduarda e o José.
Nos primeiros anos de vida a Teresa, durante o dia, ia para casa da Graçinda, a que todos chamam Ni, antiga empregada dos meus avós, que já faz parte da família, dado os anos que está com a nossa, sempre muito dedicada.
Aos 5 anos deu entrada no Colégio Luso-Francês e também na natação no Futebol Clube do Porto. Mais tarde os horários dos treinos da natação não permitiam conciliar com as aulas e as boleias e então saiu com 9 anos e começou a praticar atletismo, por sua opção. Mesmo treinando ao ar livre teve apenas as doenças próprias da idade, foi sempre muito saudável. O seu percurso de vida foi perfeitamente normal, de relações fáceis, brincalhona, destemida, diria mesmo arrojada, gostava de pôr nomes engraçados às pessoas, o Parafyta, Birgolyne, a Peruquinha, etc., fazia amigos sempre por onde passava, gostava de praticar desporto, o seu clube era o Porto, do qual era uma adepta ferrenha.
O seu sentido de responsabilidade era elevado e preocupava-se não desiludir, principalmente o pai, figura que ela respeitava e admirava em particular. Quando chegou ao 10º ano não sabia o que escolher, se a área de saúde se as artes, pois os testes psicotécnicos que fez no colégio indicavam ambas as possibilidades, acabou por optar por saúde. Mas essa decisão foi difícil, perturbou-a psicologicamente, achou-se incapaz de prosseguir com o sucesso que sempre tinha tido até aí, o tempo parecia-lhe curto, agravado pelos treinos diários que fazia e foi então que aos 15 anos a Teresa teve uma depressão, motivada pelo seu elevado sentido de responsabilidade, colocando sempre a fasquia alta, como era seu hábito. Mas com a ajuda de uns anti - depressivos venceu o ano com média de 17 valores, e no atletismo as medalhas foram as suficientes para a deixarem satisfeita, por isso o mau tempo parecia ter passado.
Férias de Verão, casa no Mindelo, muita praia e piscina, tudo à maneira.
Novo ano 2005, o terrível.
Em Março apareceu na mão direita da Teresa um hematoma, que não doía, inicialmente de reduzidas dimensões, que foi crescendo, até que o seu tamanho começou a perturbar a escrita. Vista pelos médicos do clube e outros, o diagnostico era uma lesão provocada por um lançamento durante o treino, ou algo parecido, não valorizaram. Passados um ou dois meses, o hematoma teimava em não desaparecer e sempre a crescer. A Teresa estava já com problemas de estômago, devido aos anti-inflamatórios que tomava, foi fazer, por sugestão do meu irmão Mário, uma ecografia à mão. Passados uns dias, num domingo à noite, entrou no meu quarto e disse:
- Mãe, tenho nas axilas gânglios, o que será?
O meu corpo paralisou, e aproximei-me dela para confirmar, disse-lhe que fosse deitar-se que amanha via-se melhor o assunto, olhei para o relógio e vi que já era tarde para ligar para a minha irmã, por sinal madrinha da Teresa e médica, em hemoterapia, no IPO no Porto, mesmo assim liguei. Já não dormi essa noite.
A partir desse dia o frenesim de consultas, exames, médicos, enfermeiros, hospital, etc., foi constante. A Teresa, com apenas 16 anos, soube numa consulta de grupo de médicos, que tinha um cancro raro, de nome rabdomiossarcoma alveolar, que não podia se aproximar demasiado das pessoas, ou animais, nem frequentar locais com muita gente, tais como centros comerciais, cinemas, etc., o atletismo tinha que terminar e as aulas iríamos ver depois. Desatou a chorar, não era para menos.
O médico desde o início alertou, a nós pais, para a gravidade da doença, sugeriu que procurássemos apoio no estrangeiro, se pudéssemos em Boston ou em Londres e deu-nos os contactos dos hospitais. A Teresa foi internada no dia seguinte, no IPO do Porto, para começar a fazer quimioterapia.
O primeiro impacto a esta noticia foi terrível para todos, pensamos que é só aos outros que acontecem, principalmente para a jovem doente, que raramente estivera doente, foi muito complicado controlar tantas más notícias, carregadas de emoções negativas, que de forma rápida chegavam, que nem davam tempo a uma pessoa se recompor.
A família e amigos não se cansaram em manifestar apoio tanto à Teresa como a nós, pais. O colégio, nos seus professores e funcionários, colocou-se inteiramente à disponibilidade da aluna, para o que fosse preciso e estivesse ao seu alcance. Os amigos também a acarinharam e deram-lhe força, mas a maior vinha do seu interior, estava na sua maneira de ser.
A Teresa foi a Londres, ao hospital que nos dava mais garantias, em termos de conhecimento e tratamento, para esta doença. Trouxe o tratamento que foi administrado no IPO, contudo, mais uma vez o diagnóstico da médica de Londres foi reservado. Voltava a Londres sempre que necessário para as consultas e aquando da operação, viagens que fazia sempre muito contrariada.
Logo começou a seguir à risca o tratamento, com entusiasmo e esperança, aceitou de forma muito positiva todas as alterações e adaptações do seu dia a dia. Logo se viram melhorias, até o hematoma desapareceu da mão. Mais uma vez, a sua força de vontade parecia vencer todos os obstáculos, transitou de ano com média de 17 valores, a doença parecia controlada, apenas o atletismo é que ficava para dias melhores, que se avizinhavam.
Em Outubro fez 17 anos, deu um jantar em casa, para os amigos que lhe eram mais queridos. Foi a despedida.
Depois de tanto sofrimento em silêncio, porque ela não era de se queixar, mas eu sei avaliar bem o que ela passou, o tratamento tinha terminado, pela altura do aniversário, era necessário proceder a nova avaliação médica, para certificar se o problema tinha, ou não, ficado resolvido. A Teresa continuava com o cancro.
Em Novembro era novamente internada para dar início a novo tratamento. Adormeceu para sempre passado um mês, em casa, local que ela sempre adorou estar, no dia 12 de Dezembro 2005.
A Teresa foi um exemplo de pessoa, como aluna, atleta, amiga...., uma filha que toda a mãe gostaria de ter...., sou privilegiada por isso.
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