Maria Teresa Ramalhão da Silva Pereira
13.10.1988 – 12.12.2005
Vê lá se sabes quem sou?
Cheguei de mansinho e instalei-me em ti...
Inicialmente, não deste por nada, a tua vida continuou a decorrer
de forma normal, mas eu fui crescendo e ficando mais forte.
Um dia tu notaste que eu vivia em ti, achaste impossível, que
poderia haver engano..., ficaste zangada, revoltada e choraste
perdidamente... não me querias...., depois mais calma
procuraste saber quem era verdadeiramente, porque te tinha
escolhido e como te podias ver livre de mim. Tomaste
consciência que eu era persistente, implacável, perigoso, que
deixava marcas irreversíveis para a tua vida e que queria medir
forças contigo, se não lutasses comigo eu vencia-te facilmente.
Recompuseste-te, encaraste-me, o teu carácter revelou-se,
muniste - te de toda a ajuda possível e decidiste enfrentares-me
de forma corajosa, diria mesmo heróica.
Dada a tua valentia eu recuei, alterei a estratégia, escondi-me,
dei mesmo a atender que me fui embora e bati com a porta.
E tu continuaste a lutar, a investir contra mim... chegaste a
pensar que venceste a guerra...., mas era só uma batalha.
Foi então que no meio da escuridão a tua alegria reapareceu, os
projectos saíram da gaveta fechada à meses, a esperança num
futuro melhor renasceu...
Quando a guerra parecia ganha, eis que reapareço com ar de
gozo, mais forte que nunca, não te dando hipóteses e decidido a
acabar de vez contigo.
Sentiste novamente a minha presença e isso deixoute
irremediavelmente abalada e triste, mesmo assim vais ao fundo
do baú procurar coragem, a que restava... mas eu estava
decidido....
Foi então que o verbo viver, para ti, passou a conjugar-se
apenas no pretérito. Deixaste de ouvir os passarinhos, pela
manhã, chilrear no pátio quando comiam as migalhas de pão,
deixaste de ver as camélias vermelhas na Japoneira do teu
jardim, os dias, só noite...eram cinzentos e tristes e tu sem
conseguir controlar o teu corpo já cansado das batalhas
travadas.
Desalentada e exausta arrumaste na gaveta os teus projectos,
que eram muitos e aguardaste, de forma resignada pela minha
vontade....
Percebeste que nada mais havia a fazer. O rumo a seguir te
leva pr’a longe...
- Então, sabes quem eu sou?
- Sou um sarcoma, a doença que te vitimou.
12 de Dezembro de 2008
mão doente
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Últimas Velas
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